A Pele Que Habito

Baseado no romance Tarântula, de Thierry Jonquet, A Pele Que Habito é um filme surpreendente, que se apóia na loucura, na falta de ética e na sexualidade. Pedro Almodóvar optou por contar a história de uma forma não linear, colocando um presente confuso e negro à nossa frente e depois contando todos os eventos traumáticos que se antecederam de forma quase terapêutica, pouco a pouco até você perceber as reais intenções e motivações dos personagens.

No começo da película, vemos as belas imagens de um cotidiano no qual percebemos que algo está muito errado. Manter uma cobaia humana em um quarto monitorado para lhe desenvolver uma pele invulnerável talvez seja uma atitude nobre comparada com o que há por vir. Aqui temos a imagem do cientista louco querendo brincar de deus, como já vimos milhões de vezes em filmes clássicos, como Frankenstein. Porém, explorar a sexualidade em cima disso me parece ousado e autêntico. Não que Almodóvar não o seja, mas há um nível muito alto de choque. Criar uma coisa que se ama em cima de uma coisa que se odeia, por vingança, é uma linha de raciocínio brilhante.

A essência Sci-Fi que identificamos no começo do filme não se arrasta até o final, serve apenas como pano de fundo para os atos horrendos do médico Robert, interpretado com maestria por Antônio Banderas. Nenhuma teoria médica soa forçada. A trangênese humana é possível.

Não via uma reviravolta por vingança dessas desde o coreano Old Boy. Outra coisa que chama muito a atenção é a capacidade que a cobaia Vera adquire para manipular o médico e induzí-lo ao apaixonamento para se vingar dele.  A trama é um tanto quanto rasa e o único personagem que parece se desenvolver durante o filme é o médico interpretado por Antônio Banderas. Talvez esse seja o problema de alguns com o filme. Ele é o que é. Não abre espaço para interpretações. Acho isso um trunfo, você conseguir passar tudo sem o esforço intelectual excessivo do telespectador.

É sempre extasiante ver como Almodóvar trabalha a sexualidade humana de forma escancarada e real. O constrangimento se consuma. Temos o sexo real, não na sua forma gráfica, como em filmes pornôs, nem muito menos na sua forma romântica e idealizada. Em A Pele Que Habito o sexo é demonstrado em sua mais crua forma animal. Parece que estamos presenciando um ato sexual traumático real.

Ainda nas entrelinhas, percebemos que os personagens são isentos de valores morais. Os atos de assassinato e de tentativa de suicídio sempre se consumam e chocam, apesar de não serem viscerais. São sublimes. Ponto para o diretor. A naturalidade que o assunto mudança de sexo foi tratado causou risos que ecoaram pela sala de cinema com público pífio. Uma frieza sublime. Quase um caso de psicopatia. Uma ausência total de sentimentos para com os personagens. Almodóvar não mede esforços para demonstrar o sofrimento.

Minhas congratulações para Almodóvar pela escolha de atores, pela filmagem ótima, pela imersão proporcionada e principalmente por fazer um filme de suspense que horroriza sem mostrar vísceras, vômitos e sangue exacerbados. Recomendo fortemente.

Nota: 9/10

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