E aí… Comeu?

Os grandes filmes brasileiros têm como principal triunfo e característica a linguagem. Se comunicam diretamente com o público. E é nesse triunfo que “E aí… comeu?” se desenvolve, a partir de um ponto onde tudo e nada está definido e começa a desenvolver a trama através da forte linguagem. Todas as verdades que os homens falam sobre sexo, incluindo as suas mais absurdas manifestações eróticas. Em suas duas horas de filme, mostra o ambiente de bar de forma esplêndida, assim como a peça que o criou.

De maneira adjacente às conversas que os protagonistas têm no bar, a película nos mostra de forma ou engraçada ou trágica (às vezes vemos as duas ao mesmo tempo) todo o sofrimento emocional que os protagonistas presenciam. Temos o homem apaixonado pela prostituta que tenta satisfazer seu desejo com mulheres casadas, o abandonado pela esposa que tenta lidar com o coração partido e o pobre marido que acha que está sendo traído pela mulher. E é aí que o filme levanta o público e cava sua própria cova.

Levanta o público nas situações inusitadas de sexo, de brigas, de abandono e de dramas, mas cai em clichês inaceitáveis. A presibilidade de “E aí… Comeu?” é que tira todo o poder de sua linguagem direta e o faz cair em um romantismo barato e dissimulado. No começo do filme estamos diante de um filme brasileiro  revolucionário sobre relacionamentos e depois, vemos que as coisas são banais e baratas. É impossível não ficar decepcionado com alguns aspectos do filme.

Talvez “E aí… Comeu?” seja uma crônica perfeita  sobre o amor, do qual valorizamos tanto quando estamos  abalados emocionalmente e quando simplesmente não nos importamos mais se vai ou não fazer mal, as coisas simplesmente acontecem. O filme mostra e diz isso de uma forma bem explícita, que vence no amor que se recusa a jogá-lo.

Os pontos fortes do filme são: linguagem forte, boa trilha sonora, filmagem sólida (com uma excelente iluminação nos sets e fotografia ótima), atuações magníficas de Marcos Palmeira, Bruno Mazzeo e Emilio Orciollo Netto, que fazem excertos sobre o sofrimento emocional masculino, seu intelecto de forma pueril e seu instinto sexual. Infelizmente o ponto fraco dele é cair em situações manjadas e tentar sobrescrever a história com situações extremamente forçadas e clichês.

Nota: 7,0/10

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Shame

A compulsão sexual é um mal que atinge várias pessoas e destrói casas, famílias, mentes e relacionamentos. Ela é fortemente condenada pela sociedade quando inserida em um contexto mais familiar, mas fortemente incentivada pela mídia e pela Internet. Todos nós somos fascinados pelo sexo e pelo prazer carnal, mesmo que algumas pessoas não admitam. O instinto reprodutor está em todos nós. Mas até que ponto esse fascínio é aceitável? Como é possível diferenciar uma pessoa sexualmente ativa de um compulsivo sexual? Isso pode trazer consequências para as pessoas que convivem com alguém que possui esse mal?

Steve McQueen trabalha muito bem esse conceito no filme Shame. Trabalha ora de forma crua, com o sexo e a nudez e ora de forma menos escancarada, com sua filmagem extremamente técnica e complexa. Michael Fassbender interpreta Brandon, o típico Nova-Iorquino bem sucedido profissionalmente que possui lábia e sedução para transar. Porém, seu vício por sexo é notável: ele se masturba constantemente, possui filmes pornográficos em seu computador de trabalho, passa as madrugadas em sites de sexo online e está sempre com prostitutas ou com alguma mulher que acabara de seduzir.

A vida do personagem muda após a invasão de sua irmã Sissy no apartamento, que acabara de terminar um relacionamento e deixar o apartamento onde estava morando. Com isso, Brandon começa a se sentir preso e oprimido por ela. Sua rotina sexual é quebrada, gerando extremo desconforto para ele. Ao mesmo tempo que Brandon se encontra envolto em um mar de promiscuidade, sua irmã implora para ser aceita de volta pelo namorado. Pede para que Brandon cuide dela. Mas o mundo dele vira de cabeça pra baixo quando sua necessidade compulsória afeta Sissy, de uma forma brutal. Brandon demonstra se envergonhar desse comportamento perante sua irmã.

Shame possui um ritmo bem variado, porém equilibrado. Shame é intenso, emotivo, sexual e pensante, porém na medida e no tempo certo, sem deslizar por excessos ou forçando situações que saiam da realidade. Temos vários nus frontais dos atores, mas nenhum deles me pareceu excessivo ou fora de contexto. Michael Fassbender faz um ótimo trabalho na pele de Brandon. Na cena do metrô, mesmo sem falar nada, você consegue ver seu olhar sedutor ficando cada vez mais pervertido e sacana, até que ele desperta a sexualidade da mulher. Porém, é possível ver em seus olhos e em seu semblante que a dificuldade em controlar sua vida sexual o deixa extremamente triste. A complexidade de algumas cenas só me fez admirar o filme mais ainda. Porém, a ausência de ritmo em algumas partes do filme, o deixam um pouco cansativo de se assistir.

Shame é mais do que um filme sobre compulsão sexual, é uma ode sobre a natureza da necessidade humana. É uma aula de como tratar de sexualidade em filmes e uma aula de como fazer dramas psicológicos envolventes sem cair em clichês. Shame é emoção, sexualidade e culpa.

Nota 8/10

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A Pele Que Habito

Baseado no romance Tarântula, de Thierry Jonquet, A Pele Que Habito é um filme surpreendente, que se apóia na loucura, na falta de ética e na sexualidade. Pedro Almodóvar optou por contar a história de uma forma não linear, colocando um presente confuso e negro à nossa frente e depois contando todos os eventos traumáticos que se antecederam de forma quase terapêutica, pouco a pouco até você perceber as reais intenções e motivações dos personagens.

No começo da película, vemos as belas imagens de um cotidiano no qual percebemos que algo está muito errado. Manter uma cobaia humana em um quarto monitorado para lhe desenvolver uma pele invulnerável talvez seja uma atitude nobre comparada com o que há por vir. Aqui temos a imagem do cientista louco querendo brincar de deus, como já vimos milhões de vezes em filmes clássicos, como Frankenstein. Porém, explorar a sexualidade em cima disso me parece ousado e autêntico. Não que Almodóvar não o seja, mas há um nível muito alto de choque. Criar uma coisa que se ama em cima de uma coisa que se odeia, por vingança, é uma linha de raciocínio brilhante.

A essência Sci-Fi que identificamos no começo do filme não se arrasta até o final, serve apenas como pano de fundo para os atos horrendos do médico Robert, interpretado com maestria por Antônio Banderas. Nenhuma teoria médica soa forçada. A trangênese humana é possível.

Não via uma reviravolta por vingança dessas desde o coreano Old Boy. Outra coisa que chama muito a atenção é a capacidade que a cobaia Vera adquire para manipular o médico e induzí-lo ao apaixonamento para se vingar dele.  A trama é um tanto quanto rasa e o único personagem que parece se desenvolver durante o filme é o médico interpretado por Antônio Banderas. Talvez esse seja o problema de alguns com o filme. Ele é o que é. Não abre espaço para interpretações. Acho isso um trunfo, você conseguir passar tudo sem o esforço intelectual excessivo do telespectador.

É sempre extasiante ver como Almodóvar trabalha a sexualidade humana de forma escancarada e real. O constrangimento se consuma. Temos o sexo real, não na sua forma gráfica, como em filmes pornôs, nem muito menos na sua forma romântica e idealizada. Em A Pele Que Habito o sexo é demonstrado em sua mais crua forma animal. Parece que estamos presenciando um ato sexual traumático real.

Ainda nas entrelinhas, percebemos que os personagens são isentos de valores morais. Os atos de assassinato e de tentativa de suicídio sempre se consumam e chocam, apesar de não serem viscerais. São sublimes. Ponto para o diretor. A naturalidade que o assunto mudança de sexo foi tratado causou risos que ecoaram pela sala de cinema com público pífio. Uma frieza sublime. Quase um caso de psicopatia. Uma ausência total de sentimentos para com os personagens. Almodóvar não mede esforços para demonstrar o sofrimento.

Minhas congratulações para Almodóvar pela escolha de atores, pela filmagem ótima, pela imersão proporcionada e principalmente por fazer um filme de suspense que horroriza sem mostrar vísceras, vômitos e sangue exacerbados. Recomendo fortemente.

Nota: 9/10

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The Story of Anvil

Se há um documentário altamente recomendável para as pessoas que estão em uma banda atualmente (que fique bem claro: uma banda de rock), este documentário se chama The Story of Anvil.

A música do Anvil em si não chama tanta atenção no documentário. Apesar de terem influenciado diretamente no surgimento do Thrash Metal oitentista, percebemos que o foco não é a música que o Anvil faz, mas sim o que eles representaram um dia e como o tempo foi injusto com eles: logo no começo, vemos depoimentos de rockstars como Lemmy, Ulrich e Kerry King, comentando sobre como o Anvil já fazia Thrash Metal antes mesmo dele existir e o quão incríveis eles foram.

O fracasso de Lips e Reiner é evidente: eles estão envelhecendo e não ganham nada com a música que fazem. Lips entrega merendas escolares e Reiner faz pequenos consertos em casas. O dinheiro é curto, mas eles não desistem do Anvil por nada, e continuam amigos incondicionalmente, apesar da família e amigos dizerem que não há futuro algum com isso. Como tiveram seus 15 minutos de fama em um festival gigantesco no Japão junto com Scorpions e Whitesnake, eles continuam perseguindo o sonho de serem rockstars.

Quando uma turnê pela Europa é planejada, os integrantes da banda ficam animados, mas tudo não passa de uma grande frustração: a empresária, uma italiana loira, mal sabe falar o inglês e não faz reservas de trem ou ônibus. O resultado é: um monte de shows para platéias minguadas, com pouca publicidade, pouco ou nenhum cachê e esperas intermináveis em rodoviárias (os integrantes chegam a dormir na rua algumas vezes). Mas os shows continuam cheios de energia e os integrantes não se deixam abalar por tudo o que acontece. Não no palco.

Não só aconselhável para quem tem uma banda de Rock. O documentário também é aconselhável para quem quer ver o que está acontecendo atualmente com as bandas de Metal underground. O documentário é extremamente bem dirigido e todas as brigas e piores momentos da banda estão presentes. Durante a gravação do CD novo, Reiner se torna distante do processo de gravação e Lips fala que ele é ‘energia negativa’, se desculpando logo em seguida e dizendo, com o rosto cheio de lágrimas: “eu te amo, cara!”.

Os efeitos do documentário foram positivos, tanto para o diretor Sascha Gervasi quantopara a banda, que apesar de ainda não estar no mainstream, conseguiu o reconhecimento merecido e já fazem shows ao redor do mundo todo.

Esqueça as biografias dos grandes rockstars. Aqui temos uma história pura de perseverância, de como aceitar o fracasso, de amizade e de como fazer Heavy Metal.

 

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Porque adoro cinema e listas, e meus treze filmes favoritos

Sempre gostei de cinema. Alias, quem nunca gostou? Me recordo das saudosas visitas à Vídeo Locadora no final de semana, a indecisão extrema na hora de escolher o meu filme da semana e o medo de comprometer o entretenimento com uma escolha errada, ainda que nunca tenha me arrependido de nenhuma, pois criança gosta de qualquer coisa. Muitos filmes vistos na infância, tanto no VHS quanto nos saudosos Sessão da Tarde e Cinema Em Casa ficaram marcados na memória, mas eu me lembro mais especificamente de dois. O primeiro foi um filme chamado Cassiopéia. Exato. Cassiopéia foi o primeiro filme 100% feito em CGI, e pásmem, é brasileiro. Ele ficou marcado na minha memória não por seus gráficos horríveis e irritantemente redondos, muito menos seu plot que eu já nem sei do que se tratava, mas era algo sobre o espaço. O que ficou marcado na minha memória foi a sensação de descoberta. Encontrar aquela fita empoeirada apodrecendo no cantinho escuro da locadora e descobrir que era um filme interessante, que provavelmente ninguém havia visto. O que hoje é visto como ‘hipster’, era a primeira vez que eu experimentava a sensação de descoberta de uma obra de entretenimento não enfiada abaixo na minha garganta pela mídia.
Algum tempo depois, aluguei um filme com uma capa idiota. Tão idiota que mesmo com meus 8 ou 9 anos me recordo de ter achado que seria demasiadamente infantil (!). O filme se chamava Jack e tinha Robin Williams como protagonista. Era a estória de um garoto de 10 anos que envelhecia 4x mais rápido do que deveria, e então tinha aparência de 40 anos. Curiosamente o filme mais rejeitado da carreira de Francis Ford Coppola, me capturou desde a primeira, das muitas vezes que o vi. Eu sou uma pessoa altamente nostálgica. Tenho a tendência a sempre achar que tudo que já se foi era melhor do que é hoje. Pode ser que seja esta nostalgia falando, mas Jack é o filme mais inocentemente belo e sincero que já vi na vida. Foi o primeiro filme que me emocionou de verdade,  e até hoje o faz quando resolvo vê-lo novamente.

Então, por meados de 97 um presente de natal acabou com meu interesse por cinema. Um pequeno e maravilhoso produto da emergente tecnologia asiática chamado Super Nintendo e acabou com meu interesse por cinema, pelos vindouros anos. Até que, com meus 12 anos de idade, minha querida Mãe, desprovida de qualquer senso de falso moralismo e protecionismo idiota, me alugou dois filmes: Pulp Fiction de Quentin Tarantino e The Doors de Oliver Stone (valeu, Mãe). Nestes dois filmes, principalmente em Pulp Fiction, eu tive o primeiro contato com o Cinema propriamente dito. Meus primeiros ‘films’ e não ‘movies’. O filme de Tarantino me mostrou pela primeira vez que filmes vão além de uma estória sendo contada. O visual, o som e a violência exacerbada daquele filme me mostrou um lado do cinema que nunca havia percebido antes. Como se pela primeira vez tivesse visto o cinema como um objeto 3D ao invés de um simples quadrado.

Toda esta reminiscência pessoal cinematográfica surgiu da idéia insana que tive de listar meus filmes favoritos e resenhá-los. Idéia insana, porque fazer uma lista dos meus filmes favoritos tem todas as chances de dar errado. Deixarei filmes queridos e excelentes de fora e não me perdoarei. Incluirei filmes e depois pensarei: “What the hell was wrong with me?”. Mas essa é justamente a beleza das listas. Elas são a representação pontual de uma percepção que é fugaz, que permanece por um instante e depois se vai. Eu gosto de listas, sempre gostei. Desde criança fazia listas, de músicas favoritas, bandas favoritas, jogos favoritos, desenhos favoritos, times de futebol, comerciais, países, etc. Sempre fui um tanto peculiar enquanto criança, mas sempre me diverti sozinho, com meus interesses peculiares. Meu gosto por listas, por mais que eu quase sempre discorde elas nunca desapareceu. Até hoje sempre quando vejo alguma lista de qualquer coisa que seja em um destes portais de Internet, sempre involuntariamente clico nelas. Como eu dizia, acredito que as listas são a representação do gosto e percepção da pessoa naquele devido momento no tempo, e isto por si só vale a brincadeira por mais “inútil” que seja.

Após toda esta bobagem pessoal que ninguém está interessado em saber, farei a minha lista dos 13 filmes que eu mais gosto, em Outubro/Novembro de 2011. Vale ressaltar que não são necessariamente os melhores filmes que já vi. São os 13 filmes que mais me tocam como fã de cinema e como pessoa, independente das discrepâncias de qualidade técnica entre eles.  Porque 13 filmes? Porque eu quero. Sou hipster, 10 é overrated, 11 é impreciso, 12 é estranho. E treze é um número curioso. Jason, Zagall

Post Scriptum: “Porque”, “Por que”, “Porquê” e “Por quê”. Eu não me importo qual a forma certa. Uso apenas “Porque” para todas as ocasiões, porque acho que a língua portuguesa é redundante e nonsense o suficiente. E, como Adam Savage, eu rejeito a sua realidade a substituo com a minha.

GUILHERME’S EPIC ULTIMATE 13 BEST FUCKIN MOVIES FROM ALL THE TIME (RIGHT NOW)

NÚMERO 13: JCVD – Mabrouk el Mechri (2008)

É. Jean-Claude van Damme. Parece piada, mas não é. JCVD é um filme, que no mínimo, pegou minhas expectativas e as deu um Roundhouse Kick para o espaço. O improvável roteiro deste filme belga, conta com Jean-Claude interpretando ele mesmo: um ator de filmes de ação B, decadente com problemas judiciais e financeiros, lutando pela guarda de seus filhos. Sem nenhum dramalhão, o filme se passa quanto Jean Claude vai a uma agência bancária em Bruxelas, quando esta mesma está sendo assaltada. Van Damme fica preso como refém, é logo reconhecido, e de alguma forma a notícia espalha-se pela TV de que Jean-Claude estaria assaltando o banco. Grande parte do filme se passa nesta situação. Jean-Claude preso, lidando com o fato de ser um refém, com seus demônios interiores, além da irritante idolatria que o povo belga tem para com a sua figura. O ápice do filme fica em um monólogo introspectivo e tocante que Van Damme faz em direção a câmera. O diretor El Mechri afirma ter tirado todos da sala e deixado Jean-Claude sozinho, sem roteiro, sem script, expressar seus sentimentos quanto a sua vida, sua carreira, suas frustrações, seu problema com drogas e suas decepções com Hollywood. Tudo isto é deliciosamente adornado com uma fotografia genuinamente européia e uma montagem não-linear, que dão um toque de requinte que só os europeus sabem dar aos filmes. Resumindo, talvez ao lado de Heath Ledger, Van Damme teve a melhor atuação de 2008, além de conquistar meu respeito e admiração. Nice job, Jean-Claude!

E a lista continua em três, dois, um…

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A Balada do Samurai

A Balada do Samurai, ou Six-String Samurai, é um filme de baixo-orçamento dirigido por Lance Mungia, no ano de 1998.
O filme acaba ficando perdido no meio do mar de filmes de baixo-orçamento existentes, mas uma vez visto, Six-String Samurai jamais será esquecido.
A Balada do Samurai é um filme absurdamente original e estilizado. O filme se passa em um Estados Unidos pós-apocalíptico onde a União Sovíetica lançou a A-Bomb em 1957, tornando tudo um grande deserto sem vida, exceto pelo último reduto de liberdade: Lost Vegas. Elvis, sim o Presley, foi coroado rei de Lost Vegas e teve rockin’ reinado por 40 anos, quando veio a falecer, deixando a vaga de rei de Lost Vegas aberta.

Aí começa a saga de Buddy (interpretado por Jeffrey Falcon, um ator desconhecido que apareceu em dezenas de filmes de kung fu em hong kong e na China), um guitarrista/artista marcial que atravessa o deserto com sua espada e sua guitarra à caminho do reinado em Lost Vegas. No caminho ele encontra um garotinho que teve sua família morta por bárbaros no deserto, e que começa a seguir Buddy. Aí temos a clássica estória do garotinho órfão e do herói badass que não sabe lidar com uma criança. Ele a rejeita, mas acaba a acolhendo e protegendo.

Mas isso nem vale menção. O filme conta com uma selva de personagens e situações ímpares na história do cinema. Buddy, que é a cara (e as roupas de Buddy Holly), se depara com um time de jogadores de boliche, contratados pela morte(!) para roubar a guitarra dele. Enfrenta bárbaros, raiders, pessoas com roupas de astronauta, um exército de soldados soviéticos, que não possuem balas para seus rifles e toda sorte de rufiões desérticos.
O antagonista de Buddy no filme é a própria morte. E, como não podia deixar de ser, em Six-String Samurai, a morte é um guitarrista de Heavy Metal muito parecido com Slash do Guns n’ Roses, que despacha um grupo de mariachis para acabar com Buddy. O grupo de mariachis é interpretado pela banda The Red Elvises, que foi responsável pela trilha sonora do filme.
O que chama atenção no filme, é que, apesar da boa fotografia e locações bem decentes, o filme não possui uma gota de sangue. Sério, Buddy corta mais de 50 pessoas em seu trajeto e nenhuma gota de sangue é derramada. Talvez tenha sido pelo baixo orçamento, ou talvez para não dificultar o processo de gravação, não que faça diferença no andar da estória, mas um filme com um apelo visual tão grande, poderia ter um pouquinho de groselha jorrando e membros voando.

O filme ganhou o prêmio de melhor edição e cinematografia no festival de Slamdance, mas foi um fracasso gigantesco no box office, rendendo apenas cerca de 200 mil, com um orçamento de 2 milhões. Apesar do fracasso de bilheteria, o filme é aclamado entre os críticos e ganhou um grande ‘cult following’ entre os fãs de Sci-fi, e ação na internet.

Enfim, Six-String Samurai é um filme único e altamente divertido de se assistir. Assista, porém, com a mente aberta de quem está vendo um filme de baixo-orçamento e garanto a diversão, ou os megabytes de volta!

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A Onda (Die Welle)

Filmes alemães são excelentes surpresas. Lembro-me de ter visto Soul Kitchen, um filme germânico de comédia, e gostado demais (abordarei este mais pra frente). Os atores são desconhecidos e com histórias bem legais a serem contadas.

Com “A Onda” não é diferente. A premissa do filme está em mostrar um experimento didático envolvendo autocracia. Tal experimento é feito porque o professor vê que não consegue despertar o devido interesse nos alunos (uma vez que explicar o que é autocracia e seus fundamentos é algo bem chato). Então, ele funda “A Onda”, que é um grupo onde ele é o líder e prega todos os fundamentos da autocracia, para alunos alemães que já ouviram falar sobre o regime ditatorial nazista, mas não viveram em tempos de segunda guerra mundial. Tudo isso para a melhor compreensão do assunto. Mas fico em dúvida: viver um regime político é o melhor modo de compreendê-lo?

O filme se constrói ao redor de uma escola que exigiu que os alunos escolhessem fazer um estudo aprofundado sobre ou autocracia ou anarquia. O docente, anarquista assumido, foi escolhido para dar autocracia através de uma manobra da escola que, pelo que entendi, não deu o braço a torcer por causa da ideologia do professor, que aparece no começo do filme com uma camiseta dos Ramones.

E então “A Onda” começa a agir exatamente como um regime ditador: os alunos tratam o professor Rainer Wenger com respeito exagerado, desprezam e retaliam seus colegas que não fazem parte do grupo, agem apenas em comunidade, vandalizam para pregar suas ideologias e auxiliam apenas seus semelhantes. Um aluno chega ao extremo de querer ser escravizado pelo professor. O lado bom é que eles aprendem muito sobre respeito, disciplina, amizade e cooperação.

Um fato muito interessante é que “A Onda” foi baseado em fatos reais. Porém aconteceu nos Estados Unidos e a cadeia de eventos lá não foi tão grave quanto no filme. Uma grande sacada do filme foi a cena da sala de aula, na qual os alunos se mostram desgostosos e entediados quando o professor começa a falar da SS. Sempre que eu ouço a palavra “Nazismo” sinto arrepios, pois é muito clichê falar de Nazismo quando estudamos autocracia, agora imaginem os jovens alemães, que cresceram ouvindo essa chatice toda…

“A Onda” é um filme excelente, com um bom roteiro
baseado em fatos reais, com um elenco mirim, porém dedicado. É bem dirigido, bem filmado e bem feito. Aborda um assunto manjado com excelência, escorrega em clichês da adolescência e possui um final catastrófico e inesperado, prova de que o professor tentou parar o experimento tarde demais.

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